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quarta-feira, outubro 31, 2012

31 de Outubro em Portugal e no mundo

O internacionalismo, essa praga maldita que nos vai destruindo desde que começámos a importar modelos estrangeiros para o nosso País, ou seja, desde que D. João V se armou em Rei Sol e mais tarde D. Pedro abraçado às ideias Napoleónicas (essa "santíssima trindade" da qual só interessa a Liberdade) , enquanto os franceses destruiam as nossas Igrejas e violavam as nossas mulheres, outorgou a Carta Constitucional de 1826, ganha, hoje, contornos especialmente mórbidos. 
A noite das bruxas, ou halloween, como lhes chamam os americanos (e os portugueses também), para além da óbvia ode ao consumismo em qualquer montra do Príncipe Real ao Guimarães Shopping, transforma um dos nossos mais belos feriados, o nosso dia de finados (na verdade o dia de finados é dia 2 de Novembro, mas não é feriado), num dia próprio para se ressacar.
Dia De Todos Os Santos: haverá dia no mundo com título mais bonito? A 1 de Novembro, para além de prestarmos homenagem aos nossos mortos celebramos todos os Santos, os canonizados e os não canonizados, os aclamados, os por aclamar, os conhecidos e os desconhecidos e todos os mártires da Igreja. Fico triste, mas sobretudo com uma tremenda pica para continuar a fazer o que tenho feito, é que eu sou de um país cujo futuro está alavancado na sua memória colectiva.

O Samuel Úria é que sabe o que diz, este é o único Halloween que se devia festejar em Portugal:


A Memória, o Ladrão e o Suporte Básico de Vida segundo o Tiago Pereira

Conheci o Tiago Pereira no myspace - essa moribunda rede social que em tempos de glória foi ponto de encontro e verdadeiro carburante de uma nova e empenhada geração de músicos e afins - através da sua insana actividade diária. Estamos a falar de comentários em tudo o que é perfil de artista e de dezenas de vídeos apresentando exóticas senhoras de idade, remisturadas a versar coisas em português. O Tiago parecia-me um bicho esquisito (coisa que mais tarde, na nossa amizade, confirmei ser verdade), empenhado numa qualquer causa bizarra que não me apetecia muito descobrir. Depois veio a Tradição Oral Contemporânea, em 2008, e, mesmo antes de ver o filme, só pelo título, apurei com mais exactidão a substância da bizarria com que, meia volta, me deparava no myspace. Comecei a admirar o Tiago, por algumas coincidências entre a sua e a minha narrativa e pelo impulso danado e urgente que o estrutura, coisa que comigo também vai sendo assim. Conhecemos-nos entretanto, já não me lembro muito bem como, e foi pelas suas mãos que saiu o mais bonito videograma dos Golpes até à data (número 100 da Música Portuguesa A Gostar Dela Própria, vão ver, é a canção Embarcadiço). Mais tarde trabalhámos juntos numa encomenda que Guimarães Capital Europeia da Cultura lhe fez, o filme Vamos Tocar Todos Juntos Para Ouvirmos Melhor, um portento visual e sonoro que até à data não tem sido lá muito visto; à parte esse pormenor foram uns dias especialmente brilhantes a interagir musicalmente com a malta da música tradicional do Vale do Ave (lugar em relação ao qual sou bastante afecto). 
Para quem não sabe, a vida do Tiago é essa mesmo, um labor diário, de uma extraordinária intensidade, por esse Portugal a dentro a recolher música. Toda a música. Com especial foco naquilo que vai definhando (falo da música tradicional portuguesa), para depois usar, misturar, remisturar. O Tiago é um arquivista, um intrépido defensor da memória, um resistente (enquanto escrevo este texto está o Tiago a partilhar no facebook o trabalho que está, agora mesmo, a fazer na Terceira). São logo três coisas que prezo com muito, muito valor: Memória, Arquivo, Resistência; e não sou só eu, vão ver o Elogio do Amor do Godard e perceberão melhor aquilo a que me refiro. 
Ontem, quando começava uma viagem Caldas de Vizela-Lisboa, deparo-me com um velho, de boina, à conversa com outro, ligeiramente mais novo, gordo, de bigode e camisolão de lã, encostados a um rail de segurança mesmo antes de uma portagem. A imagem colou-se ao pensamento e foi num ápice que me apercebi "Isto vai morrer". A imagem promove bem esta ideia: o novo e o velho, o progresso a engolir a tradição, etc., etc.. E essa ideia, "Isto vai morrer" atormentou-me especialmente... parece que li ali com as letras todas a certidão de óbito de Portugal. Coisa que intu?i desde há uns bons anos para cá, mas que nunca me tinha surgido tão evidente. Para o Tiago isto tornou-se claro há mais tempo e o seu trabalho é uma verdadeira tentativa de ressuscitação cardiopulmonar do nosso país. É que já nem é a auto-estrada a engolir a paisagem, já não são os incêndios de Verão ou o internacionalismo que domina a generalidade dos portugueses, é mais do que isso, é chegar à conclusão que não há ninguém para prosseguir aquela conversa à porta da auto-estrada. Não há ninguém! O banco de suplentes está vazio e os jogadores vão se retirando a pouco e pouco.
Não sei se sabem o nome de Portugal, mas Portugal não se chama Portugal, chama-se República Portuguesa desde que assassinaram o Rei Dom Carlos. É isto que se passa: vamos sendo roubados, destituídos, alienados. Esta crise representa muito mais do que a perda de coisas seculares (Lençóis amarelecem, gravatas puem, / a barba cresce, cai, os dentes caem, / os braços caem, / (...) as coisas caem, caem, caem, Carlos Drummond de Andrade, Indicações), esta crise traz com ela o anúncio da morte da nossa alma colectiva. Acabou. A eternidade foi chutada para canto. 

Ah, mas onde é que estão / As aldeias todas / Não veio o ladrão / Já não há pessoas? Madredeus, O Ladrão.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Intimidade ii

estrada velha
casa antiga
pus o dedo na tua ferida

do cancioneiro dos Capitães da Areia

quarta-feira, outubro 13, 2010

Cidade Capital

sexta-feira, outubro 08, 2010

A Língua Da Tua Mãe

 com certeza que escolho uma imagem com um belo par de patilhas

O Mário Vargas Llosa é o novo prémio nobel da literatura e disse assim. 
Não sou apenas eu que recebo este prémio, 
é também a língua em que escrevo e a minha região.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Sou de um País

Castelo de Areia
Que o mar aprendeu a respeitar

quarta-feira, julho 07, 2010

Sou de um País





os capitães da areia, porto côvo, vila do conde, moreira de cónegos, velocípedes órbita, 

ser adolescente e descobrir as coisas pela primeira vez.

quinta-feira, julho 01, 2010

Sou de um País


arma pronta a disparar o ridículo. Sem medo do ridículo, sem medo do ridículo.

quinta-feira, junho 17, 2010

Sou de um País

cuja selecção nacional de futebol é Raça.

quarta-feira, junho 09, 2010

Tens de acreditar na existência de uma terra do coração 
numa Terra do Coração 
Adrian Borland

segunda-feira, junho 07, 2010

Sou de um país

que não é de cimento (...) cuja canção nacional é o fado, só que ao contrário.

terça-feira, abril 20, 2010

Sou de um país

que guarda a claridade como um dos seus principais atributos.

sábado, março 27, 2010



quinta-feira, março 18, 2010

Sou De Um País

encerrado num mistério atlântico.

sexta-feira, março 05, 2010

Sou de um país

cuja existência é proporcionalmente directa aos navios que coloca no mar.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Sou de um país

onde habitam os Homens-Verdade. Os Homens-Verdade são feitos de transpiração, de sangue, de choro. São construídos a partir de lobos. Têm terra nas unhas das mãos que não roem e nas frinchas da testa onde é possível interpretar a existência de luz e outros raios. São Homens que ostentam o nome que Deus escolheu para eles e que não ignoram o peso e a autoridade de um rio. Providencialmente viajam em contramão. Na realidade não são bem bem homens, antes ideias. A primeira delas todas é o Bruno Morgado.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Sou de um País

cujo rumor é passível de ser decifrado no gesto incompleto de certas arquitecturas. Agrestes, pálidas. Na geografia antiga e ingénua que a montanha decidiu. Sem pecado. Que ainda não existe.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Escolho não ser

de um tempo no qual as manifestações com que me deparo no Largo Camões são as de profissionais dos clubes de vídeo contra o download ilegal.

Não é pelo downlolad ilegal, nem pelos profissionais dos clubes de vídeo, mas é que, de facto, escolho viajar para outro tempo.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Sou de um país

que está mal consigo próprio, logo mal com estes que o bem dizem. Não vai à bola com precipitação, vagas desfavoráveis, desiste e ri-se perante planos de grandeza. Ele exige demasiado e nunca mostrará gratidão. Mas como este país não existe no meu coração, é tranquilo.